MVP simples ou avançado?

Para falarmos sobre MVP simples ou avançado, é importante notar que um dos erros mais comuns que todo empreendedor comete é assumir que o sucesso de uma startup é conquistado com um produto, quando na realidade um novo produto é como um diploma de faculdade… 

Leva tempo e dinheiro conseguir um, mas com dedicação e comprometimento, todo estudante que se esforça consegue seu diploma.

E, da mesma forma que um diploma, bons produtos não garantem sucesso.

Nós vivemos  em um mundo dominado pela tecnologia. Hoje é possível começar, crescer, financiar e vender um negócio virtualmente. Sem conhecer pessoalmente sequer um investidor, cliente ou comprador do seu negócio.

Isso é disrupção em sua mais pura forma e tudo isso só acontece graças a tecnologia.

No entanto, do ponto de vista de negócios, nada muda. Porque somos nós, humanos, que criamos, gerenciamos, e damos poder as centenas de milhares de soluções tecnológicas que estão presentes em nossas vidas. Negócios ainda são – e sempre serão sobre relações humanas.

E se você está criando um MVP, você vai se deparar com essa pergunta fundamental: devo construir um MVP simples ou um MVP avançado?

MVP simples ou avançado

Se você lançar um aplicativo, software ou marketplace simples para validar sua ideia, você corre o risco de perder clientes interessados, especialmente em um mercado competitivo com muitas outras soluções já estabelecidas. No entanto, você tem um benefício: testar suas hipóteses e solução de forma muito rápida e super barata.

Por outro lado, se você lançar um MVP avançado, o risco aqui é perder muito tempo e dinheiro construindo um produto a portas fechadas e as pessoas não usarem seu produto, não precisarem dele. O benefício nesse caso é lançar uma solução promissora – se os clientes demonstrarem interesse e escolherem trocar de produto, passando a usar a sua solução e pagar por ela.

O que você deve fazer? 

Há 3 elementos a se considerar para tomar essa decisão. Esses elementos são:

Expectativas do cliente, cenário competitivo e os recursos que você tem a sua disposição.

Mas antes de falarmos sobre esses 3 elementos a se considerar, há duas etapas que você não deve pular, de jeito nenhum, não importa o caminho que você escolha: a validação qualitativa e a validação quantitativa

Validação qualitativa

A validação qualitativa é onde você vai descobrir – através de fatos – como e porque sua ideia é válida. Ela envolve análise do mercado e da concorrência, fazer pesquisas e entrevistas com potenciais clientes, descobrir o job to be done do seu produto e entender as oportunidades de mercado e expectativas de clientes. Esse é o primeiro dever de casa. 

Nele você deve responder perguntas como:

  • Existe concorrência direta?
  • Se existe, quais são suas forças e fraquezas? Ou seja, no que eles são bons e no que eles são ruins?
  • Qual o perfil de cliente ideal desse(s) concorrente(s)?
  • Os clientes estão 100% satisfeitos com a concorrência ou há oportunidades a serem aproveitadas?
  • Quais são essas oportunidades?
  • Elas são grandes ou pequenas? 
  • Qual o tamanho do mercado?
  • Qual o job to be done do meu cliente? Como esse problema opera nos caráteres funcional, emocional e social de sua vida privada?
  • Como meu produto pode ser diferente?

Validação quantitativa

A validação quantitativa fornece provas concretas da validação qualitativa via testes de hipóteses.

Enquanto você captura insights e sinais de que clientes precisam de uma solução melhor, esses sinais não são suficiente para validar uma ideia. Pesquisas são sempre superficiais em relação ao problema. Pessoas não dizem sempre a verdade em entrevistas. E se você construir um produto somente baseado em validação qualitativa, há grandes riscos de que as pessoas simplesmente não usem seu produto porque ele não é significantivamente melhor do que a concorrência. Logo, não vale a pena pra elas. 

A maneira mais efetiva de realizar validação quantitativa é pré-venda. Quando você vende antecipadamente sua solução, é uma prova concreta de que clientes querem pagar pelo que você vai construir, e estão dispostos a te ajudar no financiamento e desenvolvimento do seu produto, mesmo que eles saibam que vai levar um pouco de tempo para que eles possam usá-lo.

Como alternativa a pré-venda, você realizar a validação quantitativa através de formulários mais longos, medindo se clientes estão dispostos a usar parte do tempo deles em preparação para quando seu produto estiver pronto para ser lançado.

As validações qualitativa e quantitativa são grandes oportunidades de eliminar as hipóteses inválidas e focar em construir um produto com alta previsibilidade de sucesso. Não importa se você vai criar um MVP simples ou avançado, essas duas etapas pré-desenvolvimento não devem ser descartadas em hipótese nenhuma. 

Então, vamos falar dos 3 fatores que você deve considerar para definir se você cria um MVP simples ou avançado.

1. Expectativas do cliente

As expectativas de clientes e o universo competitivo do seu mercado são fatores diretamente relacionados. Andam de mãos dadas.

Se há muitas opções, a expectativa será maior. Se há poucas opções, a expectativa será menor. Em mercados com baixa expectativa, resolver um problema mal atendido de forma simples já é um diferencial. E ele precisa ser apenas um. Algo que não existe em nenhum outro concorrente. Sem um diferencial é bem provável que sua startup falhe.

Seu produto não precisa incluir todas as funcionalidades existentes na concorrência MAIS um diferencial. Um exemplo:

O app Robinhood, que hoje é uma das maiores fintechs do mundo, quando foi lançado possui menos funcionalidades que todos os seus concorrentes. E mesmo assim, ele conseguiu um crescimento explosivo com centenas de milhares de pessoas baixando e usando o aplicativo. Isso porque ele possuía um diferencial único: permitia que as pessoas fizessem investimentos sem pagar comissões.

Da mesma forma foi com o quinto andar. Quando começou, o produto era MUITO mais simples do que hoje, e o objetivo era simples: um site que pudesse conectar proprietários e inquilinos de jeito prático e seguro. Sem cobrar nada por isso. Era praticamente uma imobiliária online com um diferencial: permitir que inquilinos conhecessem o imóvel de forma mais rápida, pela internet, para ganhar tempo na escolha. Eles usaram fotos de extrema qualidade para entregar essa promessa. Depois de validar a ideia, outras funcionalidades foram acrescentadas pouco a pouco, da mesma forma que um diploma na faculdade. Semestre a semestre ele fica mais perto.

2. Cenário competitivo – mercado

Em mercados com soluções limitadas e mediocres sempre existirão grandes oportunidades. Em mercados cheios de concorrentes, as barreiras de entrada são maiores. No primeiro caso, resolver problemas de segmentos mal atendidos pode significar lançar uma solução simples, desde que ela solucione o problema do cliente – realize o job to be done. O AirBNB conseguiu seus primeiros clientes pagantes sem um site, via Craiglist, um tipo de classificados online dos Estados Unidos. Logo em seguida, lançou um site super simples. Onde você não conseguia sequer saber onde o imóvel estava localizado em um mapa. Muito menos processava os pagamentos via plataforma. Era preciso o locador e locatário trocarem o pagamento manualmente.

No segundo caso, mesmo que o mercado seja cheio de concorrentes, sempre haverá segmentos que possuem dores mal atendidas ou que não são atendidas de jeito nenhum. Esses clientes estarão usando opções que são limitadas para eles, e sempre estarão dispostos a explorar novos produtos. 

Foi o que fez a Loft, o primeiro unicórnio brasileiro de 2020, e o mais rápido da história do país. O mercado de construção civil é LOTADO de concorrentes.

A Loft identificou que quem compra um AP usado quer algo novo e não quer ter o trabalho de reformar o imóvel. Porque reformas custam caro e nunca se sabe o preço final de uma reforma até que ela termine. O mais interessante é a super segmentação que a Loft começou. Ela comprava imóveis de alto padrão apenas na região de Jardins, em São Paulo. Um tipo de imóvel, em um unico bairro/região de uma unica cidade. 

Diferenciar sua startup através da segmentação vai permitir que você comece com um MVP mais simples, desde que seu produto ajude usuários a atingir seus objetivos, mesmo que ele tenha 10% das funcionalidades de outros produtos concorrentes.

3. Recursos a disposição

Esse é um dos fatores mais importantes porque você pode ter todo o conhecimento necessário para criar um produto avançado, mas não ter os recursos para financiá-lo. Se esse for o seu caso, iniciar a validação quantitativa com pré-venda é indispensável.

Você pode começar entregando uma solução/MVP muito simples para um único segmento de clientes que possui uma dor muito intensa por uma solução melhor e estão dispostos a mudar e explorar novos produtos. Isso significa que você deve dedicar mais tempo nas etapas de validação qualitativa e quantitativa, para descobrir exatamente o que seu produto deve ser e como atrair esses usuários para que eles ajudem você a desenvolver esse produto, passo-a-passo, através de pré-vendas, feedbacks e inidicações. 

Entrevistas estruturadas são um grande aliado nesse caso.

Porque, no final, o que importa é que você entenda o perfil do seu cliente ideal, suas necessidades e expectativas. Assim você pode construir algo simples, porém poderoso, focando apenas na(s) funcionalidade(s) diferencial(is) ao mesmo tempo em que assegura uma experiência nota 10 para esse usuário. No fim do dia, não importa a quantidade de recursos você possui. Sempre haverá uma maneira de começar e se diferenciar.